Comunicado referente a matéria jornalística sobre câmera térmica de atração turística que revela câncer de mama em visitante

Recentemente foi vinculado a imprensa reportagem referente a mulher que descobriu câncer de mama ao se expor em frente a câmera termográfica durante visitação de uma atração turística em um museu.

Esta reportagem tem sido utilizada e replicada de forma inadequada por algumas clínicas com exíguo conhecimento básico em Termologia e empresas de venda de aparelhos termográficos para divulgar o exame de termografia de mama.

Primeiramente, é importante esclarecer que termografia não realiza diagnóstico de câncer de mama, como deixa a entender a reportagem, e sim alterações vasculares que podem ter relação com maior ou menor risco de doenças mamárias, tanto benignas quanto malignas. A termografia não substitui a triagem tradicional do câncer com mamografia ou demais exames1,2. Ela não resolve o problema do diagnóstico do câncer isoladamente sem apoio de um exame anatômico para realização de biópsia quando necessário. Não é método de tratamento, tampouco pode ser considerado alternativo a mamografia e demais exames. Deve-se deixar claro ao paciente que a termografia não substitui a mamografia e demais exames, por assinatura de termo de consentimento. Também é obrigatório estar escrito no laudo que não substitui a mamografia e demais exames e que faz parte da extensão da consulta médica.

Também não se trata de algo tão simples de visualizar no qual aparece na imagem da reportagem. As alterações vasculares são muito sutis nas lesões precoces, e identificar precocemente é o grande objetivo do rastreamento do câncer de mama. Devido ao risco de dano contra pacientes por indivíduos sem a necessária qualificação, a responsabilidade deste tipo de avaliação oncológica e pelo fato de envolver risco de integridade e sequelas a vida da paciente por potencial atraso diagnóstico, o exame termográfico, mesmo que seja apenas relacionado à avaliação de risco de câncer, deve ser realizado e supervisionado somente por médicos especializados e em ambiente médico como orientado pela ABRATERM, e não em museus ou espaços sem supervisão médica. O médico deve saber guiar o acompanhamento com outros exames, fazer a palpação das mamas e das cadeias linfonodais conforme prática médica recomendada, e no caso de confirmação diagnóstica por biópsia e cirurgia possa depois, se indicado, saber fazer o devido monitoramento pós-cirúrgico termográfico a longo prazo. A realização do exame termográfico sem estes itens ou fora de ambiente médico configurará má prática médica, exercício ilegal da medicina e atividade imbuída de mentalidade mercantilista. Devido a responsabilidade deste tipo de avaliação e risco a paciente, o exame termográfico de mama deve ser realizado por médico especializado em ambiente médico, pois entre um acompanhamento e outro pode haver o desenvolvimento do tumor, mesmo que o resultado termográfico ou de outros exames anteriores termográficos ou não, sejam negativos. Portanto, a termografia de mamas deve ser realizada apenas por médico como uma extensão de sua avaliação clínica e em ambiente médico, para evitar o atraso na conduta definitiva para solução do caso e porque são profissionais habilitados para tratar eventuais complicações oriundas de tais procedimentos diagnóstico e de rastreamento3,4,5,6. Casos de profissionais não habilitados e não médicos já resultaram em processos legais nos EUA e outros países contra estas pessoas1. Lembramos que no Brasil, a prática de exercício ilegal da medicina também é prevista no nosso código Penal. Permitir que profissionais que não tenham a devida habilitação e autorização legal para a execução de procedimentos diagnósticos e de avaliação de risco oncológico que pode resultar em procedimentos invasivos ou no seu atraso, é colocar em risco a saúde e integridade física da população.

A termometria cutânea por termografia consta na Tabela de Procedimentos Médicos da Associação Médica Brasileira/AMB (39.01.007-4) e Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos/CBHPM (41.50.11.36), complementando o exame clínico, portanto, parte integrante do diagnóstico médico em diversas síndromes14. A termografia médica é aprovada pelo FDA para o rastreamento do câncer de mama, mas apenas quando utilizada como teste primário em conjunto com exames anatômicos, como a mamografia, ultrassonografia e ressonância magnética. Apesar de algumas controvérsias mais recentes, mamografia é ainda considerada padrão-ouro para rastreamento do câncer de mama. Mas não é suficientemente capaz de identificar 100% dos tumores, principalmente em mamas densas.

Mas apesar disto, alguns profissionais, muitos não médicos, especialmente quiropráticos contrariam o posicionamento das agências de regulamentação dos EUA e de outros países argumentando que ninguém precisa de uma mamografia e que a termografia de mamas independentemente é suficiente para o diagnóstico precoce1,2. Estes profissionais contribuem para prática de atos lesivos contra pacientes e contra a reputação de médicos termologistas distribuindo massivamente material impresso e nas redes sociais anunciando a termografia como um meio alternativo a mamografia, eficiente na detecção de câncer destacando de forma irresponsável suas vantagens como meio não radioativo, sem contato, sem contrate. Muitas das vezes com apoio ilícito de fabricantes e distribuidores de câmeras termográficas com fins de venda de aparelhos termográficos. Estes profissionais costumam também propagarem esta conduta negligente e irresponsável em cursos, simpósios e outros eventos de saúde para defender suas argumentações até o momento pseudocientíficas. Muitos outros profissionais de saúde médicos e não médicos, e até mesmo leigos, de forma precipitada e imprudente acabam também compartilhando “que existe uma alternativa à mamografia que é muito mais eficiente na detecção do câncer” com amigos e familiares, sem saber o mal que podem estar provocando na população desconhecedora do tema1,2. As pessoas acreditam e acabam não fazendo o exame anatômico para o diagnóstico definitivo. Para alguns pacientes nos EUA e outros países o exame de termografia isoladamente realizado por não médico foi devastador. Familiares destas pacientes que tiveram o diagnóstico atrasado, fizeram quimioterapia e cirurgias mais agressivas, alguns evoluíram a incapacidades física devida sequela de metástases e outros a óbito, processaram estes profissionais por má prática, negligencia, imprudência, imperícia e exercício ilegal da medicina1.

O inciso III, do art.4º, da Lei 12.842/2013, assim dispõe:
“Art. 4º São atividades privativas do médico: (…) III – indicação da execução e execução de procedimentos invasivos, sejam diagnósticos, terapêuticos ou estéticos, incluindo os acessos vasculares profundos, as biópsias e as endoscopias;
A prática de diagnóstico médico fora deste contexto é caracterizada juridicamente por exercício ilegal da Medicina. Diversos outros profissionais que não são médicos, i.e., sem graduação em Medicina, podem ser denunciados quando da execução de atos que são privativos dos médicos, procedimentos diagnósticos restritos ao exercício da Medicina, isto é, de responsabilidade médica (p.ex. diagnóstico de câncer, lesão etc) (falsos médicos, código penal pena de 2 anos).8

Como a termografia de mama também implica na continuidade, ou potencial risco de atraso, na investigação de doença maligna, mesmo quando acompanhado por exame anatômico como qualquer outro exame médico, é assim possível concluir que apenas o médico é profissional legalmente habilitado para a realização de diagnóstico que envolva procedimentos invasivos, sejam diagnósticos, terapêuticos ou estéticos, como biópsia, mastectomia ou mamoplastia, incluindo também os acessos vasculares profundos e endoscopias para tratamento oncológico.

O sensacionalismo quanto a divulgação da termografia no diagnóstico do câncer de mama já foi chamada atenção por diversos órgãos de saúde e pela ABRATERM em outros pareceres. Esta recente reportagem não serve de exemplo para as clínicas que querem divulgar um trabalho realmente sério sobre termografia de mamas, isto é, sem assustar as pacientes, sem criar cancerofobia, mentalidade mercantilista, sem cair no popular e na crença pseudocientífica ou fantasia folclórica. Estará se criando um distanciamento da ciência. Se não tratarmos este assunto com seriedade, a sociedade nem a comunidade científica vão considerar de analisar a termografia como meio que realmente pode ser melhor estudado e utilizado para apoio no rastreamento e avaliação de risco do câncer de mama. A ABRATERM zela pelo perfeito desempenho ético da Medicina e pelo prestígio e bom conceito da profissão e dos que a exercem legalmente. A publicidade médica deve obedecer exclusivamente a princípios éticos de orientação educativa, não sendo comparável à publicidade de produtos e práticas meramente comerciais. Portanto, é contrária a indução de confusão, anúncio de propaganda enganosa de qualquer natureza e de matérias desprovidas de base científica ou com sensacionalismo tampouco vinculação pública de informações que causem intranquilidade à sociedade.

É vedado ao médico: Art. 112- Divulgar informação sobre o assunto médico de forma sensacionalista, promocional ou de conteúdo inverídico.

 


(1) Breast cancer survivor shares cautionary tale of relying solely on thermography 

(2) Brioschi ML, Balbinot LF, Dalmaso Neto C. Termografia: Responsabilidade Profissional e Publicidade , Pan American Journal of Medical Thermology: v. 3 (2016): PAJMT 

(3) Brioschi ML, Balbinot LF, Dalmaso Neto C. Níveis de treinamento em Termografia para Profissionais da Saúde , Pan American Journal of Medical Thermology: v. 5 (2018): PAJMT 

(4) Se não for realizado por profissionais médicos habilitados, o exame diagnóstico de termografia pode trazer graves complicações. 

(5) Termografia por diversos outros profissionais que não médicos

(6) Nota de Pesar e Esclarecimento à Sociedade 

(7) Como saber se um laudo de termografia é de boa qualidade?

(8) Atuação em termografia na área de saúde: Atos diagnósticos

(9) ML Brioschi. Diagnóstico Precoce de Câncer de Mama não tem Clínica: Estudo combinado por Termografia Pan American Journal of Medical Thermology: v. 3 (2016): PAJMT.

(10) Souza GA, Brioschi ML, Vargas JV, Morais KC, Dalmaso Neto C, Neves EB. Reference breast temperature: proposal of an equation. Einstein (Sao Paulo). 2015 Oct-Dec;13(4):518-24. doi: 10.1590/S1679-45082015AO3392.

(11) K.C.C. Morais, J.V.C. Vargas, G.G. Reisemberger, F.N.P. Freitas, S.H. Oliari, M.L. Brioschi, M.H. Louveira, C. Spautz, F.G. Dias, P. Gasperin Jr., V.M. Budel, R.A.G. Cordeiro, A.P.P. Schittini, C.D. Neto. An infrared image based methodology for breast lesions screening Infrared Physics & Technology, Volume 76, May 2016, Pages 710-721

(12) Medo da mamografia?

(13) Limites éticos do fisioterapeuta na prática da Termografia considerações da ABRATERM/Comitê de Fisioterapia 

(14) Termometria Cutânea – Envio de resultado de exame por internet. PARECER Nº 1931/2008 CRM-PR. PROCESSO CONSULTA N. º 51/2008– PROTOCOLO N.º 6018/2008 

Calendário de Eventos
Congresso Sul-Americano de Termografia Médica
23 a 24 de novembro de 2019
São Paulo, SP
Curso de Termografia Clínica com Prof Dr. Marcos Brioschi
15 a 17 de novembro de 2019
São Paulo, SP
Prova de Título em Termologia e Termografia Médica 2020
24 de novembro de 2019, das 07:30 às 12:00
São Paulo, SP
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